Carnaval em Vale da PintaO Carnaval, ou Entrudo (por se tratar da Introdução à Quaresma) já por cá mora há bué. Desde o século XV que esse evento com as manifestações de bailaricos, desfiles e bestice, foram adotadas em Portugal, cada qual a seu tempo. As modalidades, que começaram por ser muito agressivas, violentas até, têm vindo a suavizar-se ao longo dos tempos. Assim, os ataques com sacos de areia ou farinha, ovos, laranjas ou produtos de mau-cheiro, estão praticamente fora de uso. Enfarinhar e mascarrar a cara ao outro cara, ainda vi e fiz, mas aquelas cenas de autênticos exércitos de pessoal emborrachado, transportados em camiões, atirando com limas e sacos de água, como assisti em Ponta Delgada, são autênticas barbaridades.
Na década de 50, em Vale da Pinta, o Carnaval, não sendo nada do outro mundo, e não conhecendo nós o Mundo, para rapazes e raparigas era mesmo o melhor do Mundo. Tudo começava duas semanas antes, com bailes de roda, em que se rodava e rodopiava ao som de populares cantorias. De vez em quando lá aparecia o Zé Gabirro, com a sua harmónica bocal, que, interpretando repertório bastante variado, quanto mais não fosse, sempre dava para quebrar alguma monotonia.
Bebedeiras, também faziam parte da agenda, mas essas eram mais para o domingo, porque de semana trabalhava-se de dia e dançava-se à noite. Domingo à tarde, o desfile era paupérrimo. Sem carros alegóricos, sem samba nem sambistas - porque nem minissaia quanto mais tanga - era ver o pessoal, rua acima, rua abaixo, alguns em trajes andrajosos com a meia da avó enfiada na mona, tipo garruço, mas que davam cá um gozo... Mas bom, bom era quando o António Bichaninha se dispunha a entrar no corso e aí, sim, era bagunçada pela certa. O António Melo, devido a afazeres profissionais, nem sempre estava presente, mas neste ano ele aí estava, disposto a pôr em prática toda a sua veia artística, não fosse ele um exímio compère teatral. Deambulando por ali, em plena via pública, de óculos escuros na fronte, boina espanhola na cabeça, uma grande pera negra no queixal, bornal de porqueiro a tiracolo e chibata de marmeleiro na mão, conduzia uma valente vara de suínos de duas patas que, sôfregos e gulosos, não lhe davam tréguas. Os porcos éramos nós, os putos; a ração era à base de rebuçados que o porqueiro mercara no Afonso. A cada grunhidela, uma valente chibatada no chão acompanhada de uma mão-cheia de ração, que lançava em semicírculo.
Pese embora a pobreza franciscana de que o corso enfermava, sempre aparecia um ou outro comparsa a animar o pagode. Umas bocas apropriadas, ajustadas, dirigidas ao porqueiro de ocasião, caiam sempre bem. E agora, na enésima vez que a horda passava junto à taberna do Júlio, um forasteiro - creio que da Massuça - envergando jaquetão, colete, calça à marialva, chapéu de feltro e barriga saliente do conjunto, resolveu entrar na festa interpelando o Bichaninha.
- Ó chefe! Você não leva a mal que eu faça um comentário, pois não?!
e responde o visado:
- Essa agora!... Ó mestre, agora é Carnaval, por isso não levo a mal!...
e disse o forasteiro:
- Ó chefe, você com essa pera parece mesmo um bode!
resposta pronta do Bichaninha:
- Olhe, e a você, para parecer um bode só lhe falta a pera!
O provocador ficou ruborizado, mas por pouco tempo, já que o António Bichaninha fez questão de lembrar ao fulano que o conhecia e, como tal, não fora ao mato sem corda.
E foi em risada geral que o corso terminou, com a entrada dos dialogantes na taberna do Júlio para refrescar a gorja. Os porcos que bebessem água.
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